A servidão de passagem é um dos institutos jurídicos mais frequentes em disputas imobiliárias no Brasil. Prevista nos artigos 1.378 a 1.389 do Código Civil, ela assegura ao proprietário de um imóvel — chamado prédio dominante — o direito de atravessar o terreno de outro para ter acesso a uma via pública, fonte de água ou recursos essenciais. Sem esse mecanismo, imóveis encravados ficariam completamente isolados, inviabilizando seu uso e valorização.
Além disso, o direito de passagem envolve obrigações para ambas as partes: o proprietário do prédio dominante deve utilizar a servidão de forma razoável e pagar indenização ao titular do prédio serviente, que é o imóvel pelo qual se passa. A avaliação técnica dessa indenização exige um laudo de engenharia especializado, pois considera a área afetada, o impacto no uso do terreno e as condicionantes jurídicas do caso.
Mas, afinal, como funciona a servidão de passagem na prática? Quais são os direitos e deveres de cada parte? E quando é necessário contratar um engenheiro para avaliar ou regularizar essa situação? Ao longo deste artigo, você encontrará respostas objetivas para cada uma dessas questões.
Vale destacar que a servidão de passagem não deve ser confundida com a faixa de servidão de infraestrutura (redes de energia elétrica, dutos de gás, oleodutos e adutoras): enquanto a primeira garante acesso a imóveis encravados, a segunda restringe o uso do terreno em benefício de uma concessionária de utilidade pública. Para entender essa diferença em detalhes, veja nosso guia sobre faixa de servidão.
O Que É Servidão de Passagem no Direito Civil
A servidão de passagem é um direito real que grava o imóvel — e não apenas a pessoa do proprietário. Isso significa que, se o imóvel serviente for vendido, a obrigação de permitir a passagem permanece com o novo dono. Nesse sentido, trata-se de um ônus real registrado na matrícula do imóvel no Cartório de Registro de Imóveis.
Cabe destacar que a servidão de passagem se diferencia de outras formas de acesso, como a simples licença de passagem (que é precária e revogável) ou a ocupação irregular. Enquanto a licença depende da boa vontade do vizinho, a servidão regularizada confere ao titular do prédio dominante um direito permanente e oponível a terceiros.
Portanto, para propriedades sem saída para vias públicas, a regularização da servidão de passagem não é apenas uma questão legal — é uma condição para que o imóvel tenha valor de mercado, possa ser financiado e transmitido com segurança jurídica. Na próxima seção, entenderemos como essa servidão pode ser constituída.
Como a Servidão de Passagem Pode Ser Constituída
A servidão de passagem pode ser constituída de três formas distintas, cada uma com seus requisitos e implicações práticas:
1. Servidão Voluntária
É a forma mais simples. Os proprietários dos prédios dominante e serviente chegam a um acordo e formalizam a servidão por escritura pública, registrada no Cartório de Registro de Imóveis. Nesse caso, as partes definem livremente o traçado, a largura da faixa de passagem e o valor da indenização.
2. Servidão Legal (Judicial)
Quando o proprietário do prédio serviente se recusa a constituir a servidão voluntariamente, o titular do imóvel encravado pode recorrer ao Poder Judiciário. O juiz determinará o traçado mais adequado — aquele que causa menor ônus ao imóvel serviente — e fixará o valor da indenização com base em laudo pericial. Essa modalidade é chamada de servidão legal ou servidão coativa.
3. Servidão por Usucapião
Menos comum, essa modalidade ocorre quando o proprietário do prédio dominante utiliza a passagem de forma contínua, pública e incontestada por um período prolongado. Parte dos tribunais admite a usucapião de servidão aparente quando há obras visíveis que evidenciam o uso permanente da passagem.
Dessa forma, independentemente da modalidade, o registro em cartório é indispensável para que a servidão produza efeitos perante terceiros. Na próxima seção, abordaremos os direitos e deveres de cada parte envolvida.
Direitos e Deveres das Partes na Servidão de Passagem
A servidão de passagem estabelece uma relação jurídica com obrigações recíprocas. Compreender o que cada parte pode e deve fazer evita conflitos e litígios desnecessários.
📌 Direitos do Prédio Dominante
📌 Direito: utilizar a faixa de passagem nos limites definidos na escritura ou sentença judicial.
✅ Extensão: inclui o direito de realizar obras necessárias à conservação da passagem (calçamento, drenagem), desde que não agrave o ônus sobre o prédio serviente.
⚠️ Deveres do Prédio Dominante
⚠️ Dever: utilizar a servidão apenas para a finalidade para a qual foi constituída.
✅ Observação: qualquer ampliação do uso pode ser contestada judicialmente pelo titular do prédio serviente.
💡 Indenização ao Prédio Serviente
💡 Direito: receber indenização pelo gravame imposto ao imóvel.
✅ Cálculo: a indenização considera a área afetada, a depreciação do imóvel, o impacto no uso e gozo da propriedade e a valorização gerada ao prédio dominante. Esse cálculo exige laudo de avaliação elaborado por engenheiro credenciado.
Assim, quando as partes não chegam a acordo sobre o valor da indenização, a solução passa necessariamente por uma perícia técnica. Na próxima seção, veremos como ocorre o processo de regularização.
Como Regularizar a Servidão de Passagem
A regularização da servidão de passagem exige uma sequência de providências técnicas e cartoriais. Abaixo, os passos fundamentais:
- Verificação da matrícula do imóvel — confirmar se já existe servidão registrada ou se o imóvel está encravado sem acesso à via pública.
- Negociação ou ação judicial — buscar acordo com o proprietário do prédio serviente; se recusado, ajuizar ação de constituição de servidão.
- Laudo de avaliação técnica — contratar engenheiro para definir o traçado ideal, a largura necessária e o valor da indenização conforme a NBR 14653.
- Escritura pública ou sentença — formalizar o acordo em cartório ou aguardar o trânsito em julgado da sentença judicial.
- Registro no Cartório de Registro de Imóveis — o registro é o ato que efetivamente constitui o direito real, tornando-o oponível a todos.
Vale ressaltar que o laudo técnico tem papel central em todas as etapas: ele fundamenta a negociação, embasa a petição judicial e é determinante para o valor da indenização. Por fim, um engenheiro experiente pode indicar o traçado que minimiza o impacto sobre o prédio serviente, facilitando acordos.
Problemas Comuns na Servidão de Passagem e Como Evitar
💡 Servidão não registrada
💡 Problema: uso informal da passagem sem registro, comum em propriedades rurais transmitidas entre gerações.
✅ Solução: regularizar mediante escritura pública e registro na matrícula do imóvel, antes de qualquer alienação ou financiamento.
⚠️ Bloqueio ou obstrução da passagem
⚠️ Problema: o proprietário do prédio serviente instala portão, muro ou cerca impedindo o acesso.
✅ Solução: ação judicial de reintegração de posse; medidas liminares são deferidas com frequência quando há prova documental da servidão.
❌ Uso além do acordado
❌ Problema: o titular do prédio dominante usa a passagem para fins não previstos (ex: passagem de caminhões em servidão para pedestres).
✅ Solução: restrição judicial do uso e eventual revisão da indenização, uma vez que o ônus sobre o prédio serviente aumentou.
Contudo, a maioria desses conflitos pode ser evitada com uma escritura bem redigida e um laudo técnico que especifique com precisão a faixa de passagem, sua largura e finalidade. Na próxima seção, veremos quando a intervenção de um engenheiro é indispensável.
Quando Contratar um Engenheiro para a Servidão de Passagem
A atuação do engenheiro é essencial em todas as situações que envolvem avaliação de valor, definição de traçado ou perícia técnica judicial relacionada à servidão de passagem. Especificamente, recomenda-se contratar um profissional qualificado nos seguintes cenários:
- Avaliação da indenização — quando as partes não chegam a acordo espontâneo sobre o valor.
- Ação judicial — a parte pode indicar assistente técnico para fiscalizar e questionar o laudo pericial oficial.
- Definição do melhor traçado — o engenheiro analisa o terreno, cotas e uso atual para indicar a faixa que cause menor dano.
- Compra e venda de imóvel com servidão — avaliação do impacto da servidão existente sobre o valor do imóvel serviente.
- Regularização de servidão informal — levantamento topográfico e memorial descritivo necessários para o registro em cartório.
Além disso, a NBR 14653 — norma técnica que regulamenta a avaliação de imóveis no Brasil — estabelece os critérios que devem ser seguidos nessas avaliações. Portanto, escolher um engenheiro com credenciamento no IBAPE e experiência em avaliações imobiliárias é fundamental.
Perguntas Frequentes sobre Servidão de Passagem
O que é servidão de passagem?
Servidão de passagem é um direito real previsto no Código Civil (art. 1.378 a 1.389) que permite ao proprietário de um imóvel sem saída para via pública utilizar o terreno do vizinho para ter acesso. O direito grava o imóvel serviente e deve ser registrado em cartório para ter validade perante terceiros.
Qual a diferença entre servidão de passagem e direito de passagem?
O direito de passagem é o termo popular; servidão de passagem é o conceito jurídico preciso. A servidão é um direito real permanente, registrado e oponível a todos; o direito de passagem informal é uma permissão revogável a qualquer tempo pelo proprietário do imóvel vizinho.
Quem paga a indenização na servidão de passagem?
O pagamento da indenização é responsabilidade do proprietário do prédio dominante — aquele que se beneficia do direito de passagem. O valor é calculado com base na depreciação sofrida pelo imóvel serviente, considerando a área afetada, o uso do terreno e as restrições impostas.
A servidão de passagem pode ser cancelada?
Sim. A servidão de passagem pode ser extinta quando o imóvel dominante adquire outro acesso à via pública, quando há renúncia expressa do titular ou por confusão. O cancelamento deve ser averbado na matrícula do imóvel serviente.
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